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Às oito
e meia da manhã
de sábado, 22 de novembro, Marco de Sá, Andressa Quines, Mariana Rocha
e Giovanni Friederich discutiam animadamente em frente ao prédio cinco
da PUCRS, em Porto Alegre. O assunto dos alunos da quarta série do
Colégio Santa Dorotéia, entre um jogo de celular e outro, era as
possibilidades da existência de uma sociedade justa. Ao lado do grupo,
perguntada, a colega Valentina Natália de Oliveira Tróis (segundo nome
e sobrenome sublinhados pela avó que a acompanhava) afirmava que uma
sociedade justa é possível sim, desde que não haja roubo e que ninguém
passe fome. Falante, diz que tirou essas idéias de um projeto sobre
justiça e injustiça. Feito na aula de Filosofia? De ‘Educação para o
Pensar’, corrige. No qual criou textos e pesquisou sobre Sócrates e
sobre as ‘três peneiras’, que são as da bondade, da utilidade e... qual
é a outra mesmo, professora? Utilidade? Não, essa já foi... é a... da
verdade! Adora fazer pesquisa, tem ‘educação para o pensar’ desde a
primeira série, vai ser advogada quando crescer, e coloca um sorriso
permanente na avó que ela nem percebe. Termina respondendo que
Filosofia é importante porque ajuda a pensar.
Do outro lado, o professor de Filosofia do Ensino Médio dos Colégios
Champagnat e Rosário, Osmar Schneider, ajeitava um grupo de alunos seus
para uma foto. Ficaram sabendo da I Olimpíada de Filosofia do Rio
Grande do Sul pelo sítio na internet e pela coordenadoria pedagógica da
escola. Divulgaram a idéia entre os alunos para ver se topavam. A
concordância foi unânime. Nas atividades pré-olímpicas, realizadas na
própria escola – que antecederam o encontro final que foi a Olimpíada
–, foram atrás de respostas para a pergunta norteadora do jogo: ‘É
possível uma sociedade justa?’. Produziram textos, painéis, vídeos,
cartazes. Envolvidos, os alunos se sentiram valorizados; perceberam que
a atividade transcende à nota. Sem dúvida é um trabalho que deve ser
continuado, sublinha ainda Oscar, que selecionou os ‘competidores’ com
um critério justo: quem quer, vai. Juntas, as escolas participaram com
mais de 30 alunos.

Na mesa de abertura, às nove e meia da manhã, o coordenador da
Olimpíada, professor do Departamento de Filosofia da PUCRS, Sérgio A.
Sardi, frisou o ineditismo do evento no Brasil. Existente já há mais de
15 anos na Europa e já realizado em diversas edições em países como
Colômbia, Argentina, Chile e Uruguai (país com o qual a organização da
Olimpíada manteve contato), a I Olimpíada de Filosofia no RS estava
sendo a precursora no país. Recebendo contato dos Estados de Minas
Gerais, Goiânia, Rio de Janeiro e São Paulo, como noticiou Sardi,
talvez estivesse neste primeiro encontro o germe de um futuro evento
nacional. O Diretor da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas - FFCH
da PUCRS, professor Dr. Draiton Gonzaga de Souza, preveniu a platéia de
que a filosofia é uma atividade perigosa. Aos olhos atentos dos
participantes, explicou que, por isso, foi banida tanto tempo das
escolas: quem quer dominar não pode deixar que o dominado pense, disse,
referindo-se ao tempo da ditadura. Invocando o filósofo da autonomia,
Imannuel Kant, lembrou que a maioridade, contudo, só é alcançada quando
se pensa com a própria cabeça. E instigou os estudantes a usarem a
filosofia na sua essência: “criar mundos novos além daquilo que nos
circunda; ir além do que se vê; não apenas viver, mas saber por que se
vive”. Adão Clóvis, professor do Departamento de Sociologia da PUCRS,
assinalou que a competitividade não é a causa dos problemas atuais. A
sociedade grega era tão ou mais competitiva. Lá, porém, a solução era a
verdadeira democracia; hoje, o remédio só poderia ser a justiça. Apenas
através dela, que pressupõe a educação, é que haveria igualdade na
diferença, já que nenhum homem é igual ao outro. Cheios de idéias, os
‘atletas’ tiveram decretado o início dos jogos com a frase do professor
Sardi: “Olimpíada e filosofia andavam juntas desde a Grécia antiga, e
agora, de novo, aqui!”.
A peça de teatro ‘Romeu e Julieta: Problemas Modernos’ abriu as
atividades. Produzida pelo Grupo Cemiterium: Teatro e Pesquisa, do
Colégio Kennedy, narra o encontro de uma jovem de classe média,
Julieta, com um adolescente de classe baixa, Romeu. Os problemas
contemporâneos que os envolvem foram pesquisados pelos próprios
estudantes do Ensino Médio – atores do espetáculo –, que os
transformaram em roteiro. Logo após, alunos, professores, organizadores
e convidados confraternizaram-se no jogo do balão. Ao estourar a bexiga
com o nome de outro participante dentro, apresentações foram feitas, e
animadas conversas filosóficas, ou não, travadas.
Depois do almoço, iniciou-se a primeira modalidade. Divididos em salas
de aula por nível de escolaridade, os estudantes participaram das
Comunidades de Investigação. A partir de um texto filosófico que
abordou o tema da justiça, iniciaram a atividade. Na turma do Ensino
Fundamental, o debate foi acirrado: permanentemente com os dedos
levantados, os pequenos argumentadores contavam histórias, davam
exemplos, ficavam pensativos e expressavam as suas opiniões. Nas turmas
de Ensino Médio, igual envolvimento. Temas como ecologia, política,
evolução natural, amizade e sociedade foram trazidos para a conversa
orientada por perguntas elaboradas pelos próprios estudantes. Na
modalidade artístico-filosófica, o entusiasmo foi o mesmo.
Apresentações e vídeos produzidos pelos alunos serviram de tema para as
discussões dos grupos.
No auditório, professores de Ensino Fundamental e Médio, de escolas
públicas e particulares expunham métodos, atividades, dificuldades e
soluções para o ensino de Filosofia. Apresentação salutar de trabalhos
pedagógicos num ano em que a Filosofia volta a ser disciplina
obrigatória no Ensino Médio no país, e as bases didáticas para a
matéria são escassas. Destaque para o Colégio Municipal Cinco de Maio,
de Montenegro, presente com dez professores, os quais trabalharam a
Olimpíada com os alunos desde a ‘hora do conto’, na biblioteca,
passando por Geografia, Matemática, Ciências, até o Laboratório de
Aprendizagem, sendo que a escola não tem a disciplina de Filosofia. No
Colégio La Salle Esmeralda, o tema da Olimpíada foi trabalhado pelos
professores de Inglês, Português e Filosofia, também todos presentes.
Participação importante também do Instituto Estadual de Educação de
Sapiranga, do Colégio Militar de Porto Alegre, do Instituto Estadual
Cecy Leite da Costa, de Passo Fundo, e da Escola Santo Inácio. Ativos
no debate, salientaram a importância da experiência, da sociabilidade,
e do colocar-se na perspectiva do outro, para concluírem o debate –
como não poderia deixar de ser – com uma pergunta: ‘como se pode fazer
alguém filosofar?’. 
Depois de toda concentração na última modalidade da Olimpíada, a
produção textual – que será publicada no sítio da Olimpíada –, os cerca
de 60 alunos e mais de 20 professores reuniram-se no auditório para o
encerramento dos jogos. Instigados pela pergunta do professor Sardi –
se é preciso ter um perdedor para haver um ganhador –, uma voz do
público se destacou. Era Valentina. Incansável na argumentação,
defendeu que, se já estava participando, não tinha como ser perdedora.
Salva de palmas. Perguntada, então, se é possível uma sociedade justa,
afirmou novamente que sim: “sem poluição e com amizade, pois numa
sociedade justa não é justo matar uma árvore apenas para fazer um
lápis, por exemplo”. Salva de palmas! Declarados todos vencedores,
professores, alunos, organizadores e convidados vibraram pela vitória
de poder estabelecer um debate franco sobre um tema pungente, numa
sadia confraternização. Todos aguardando a II Olimpíada de Filosofia!

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 |
O
professor Dr. Draiton Gonzaga de Souza, Diretor da FFCH / PUCRS, fala
sobre a Olimpíada, sobre a implementação da obrigatoriedade do ensino
de filosofia no Ensino Médio, e sobre as relações entre filosofia e
sociedade.
Olimpíada de Filosofia: Qual a relevância desta Olimpíada de Filosofia?
Draiton Gonzaga de Souza:
Eu considero muito importante a realização desta olimpíada. Trata-se de
um evento inédito no nosso contexto aqui no Brasil, na tentativa de
divulgar mais a filosofia e de convidar as pessoas, sobretudo os
estudantes de Ensino Médio, que estão na PUC neste dia de hoje, a se
interessarem por questões que são filosóficas, e mostrar que a
filosofia não é algo estranho à vida deles.
OF: Sobre a obrigatoriedade da filosofia no Ensino Médio em todo o país, que foi sancionada este ano, qual a sua opinião?
DGS:
Eu sou a favor de que a filosofia seja amplamente divulgada, ainda que
alguns afirmem que é necessário primeiro formar professores para depois
introduzir a obrigatoriedade. Se pensarmos assim, nunca vamos
introduzi-la. Então, mesmo que haja alguns percalços agora no período
de implementação da filosofia no Ensino Médio, eu sou totalmente
favorável. É uma lástima que a filosofia tenha desaparecido do
currículo do Ensino Médio. Ela deve estar presente não apenas na
disciplina de filosofia, mas também nas outras matérias, como uma
postura, uma forma crítica de abordar os conteúdos.
OF: Neste sentido, como o senhor caracterizaria a relação do ensino de filosofia com a sociedade atual?
DGS:
Eu diria que a filosofia e a sociedade têm uma relação ambígua. Por um
lado, há filósofos, ou professores de filosofia que acham que a
filosofia não deveria se envolver com questões atuais da sociedade.
Eles preferem ficar na sua torre de marfim a se envolver com as
questões do nosso tempo. E, por outro lado, por parte da sociedade,
muitas vezes há aquela postura de uma certa desconfiança em relação à
filosofia, porque ela trata de coisas tão abstratas, que não parecem
dizer respeito à vida humana; então, por que se interessar por ela?
Nessa relação da filosofia com sociedade eu penso que devemos derrubar
os preconceitos de ambas as partes. Mostrar para a sociedade que a
filosofia é muito importante. E, também entre os puristas da filosofia,
temos que fazer com que de alguma forma eles se interessem mais pelas
questões do nosso tempo.
OF: Qual o papel da universidade neste processo, de formação dos professores (e também bacharéis) de filosofia?
DGS:
O papel da universidade é decisivo porque ela tem a tarefa de formar
esses professores que trabalharão nas escolas. Eu penso que, por ela
ter uma força tão grande nesse processo, necessariamente temos que ter
uma maior interação entre universidade e escola para ver como a
filosofia deve ser ministrada. Pois não adianta formarmos professores
para uma realidade ou para uma forma de ensinar totalmente diferente da
realidade das nossas escolas. Se não tivermos uma aproximação entre
universidade e escola no processo de formação do professor, nós
formaremos professores inadequados.
OF: Qual seria a melhor maneira para implantar a filosofia no Ensino Médio?
DGS:
Nós devemos ter um grande cuidado com a didática da filosofia. Na
escola, a filosofia pode espantar mais do que atrair. Por isso, temos
que dispor de material didático apropriado, escrito e visual. Hoje está
sendo produzida muita coisa no Brasil e fora do Brasil – DVD’s,
arquivos de mp3’s, dentre outros – e agora mesmo nós assistimos a uma
peça teatral na Olimpíada de Filosofia... Por que não tomar elementos
da arte e, a partir daí, fazer uma reflexão de cunho filosófico? Por
fim, eu diria que nós devemos encontrar uma linguagem atual para
abordar as questões filosóficas. É muito importante a produção de
material didático atualizado.
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Texto e imagens: André Dornelles Pares newsletter desenvolvida por

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